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sexta-feira, 16 de março de 2012

Comentário Convidado(Roberto Fideli) - A Queda do Gigante

Com a derrota dos dois times de Manchester na Europa League, os clubes ingleses encontram-se em situação inusitada nos torneios europeus.

Como torcedor ferrenho do Manchester United, é de se confessar que estou no mínimo chateado com a eliminação do meu clube do coração pelo Athletic de Bilbao nesta quinta-feira em jogo válido pela segunda partida as oitavas de final da Uefa Europa League. Qualquer redevil que não seja tão fanático ao ponto de cair no reino da ilusão, sabia que a classificação para a etapa seguinte da competição seria uma tarefa árdua, ainda mais depois da derrota em casa para os espanhóis pelo placar de 3x2.
Com uma escalação equilibrada – Rooney jogou isolado na frente, enquanto Park e Giggs armavam as jogadas pelas laterais com apoio de Tom Cleverly e Michael Carrick – o United chegou estádio conhecido como “A Catedral” disposto a arrancar uma vitória a ferros. Um placar por 2 x 0 dava a classificação aos ingleses, mas um 2 x 1 complicaria muito as coisas.
Foi exatamente esse o placar final da partida, mas ao contrário. Com um gol de Fernando Llorente logo aos 23 minutos e outro de De Marco aos 19 do segundo tempo, os diabos vermelhos viram a classificação para as quartas-de-final ir pelo ralo, fora o baile. O placar teria sido consideravelmente maior – beirando uma possível goleada histórica em determinados momentos – se não fosse um nervosismo excessivo na hora das finalizações.
Os bascos foram superiores durante cada um dos noventa minutos do jogo e se não fosse uma bomba desferida por Wayne Rooney de fora da área aos oitenta minutos, o United pela primeira vez na história seria eliminado de uma competição européia por um placar agregado de mais de três gols de diferença (no final foi 5x3). E não somente isso, o que se viu foi um time apático, sem vontade, desejo de marcação, objetividade, capacidade de toque e corte e que era um dos somente dois representantes ingleses nas eliminatórias da Europa League.
Vale lembrar é claro, que os times que se enfrentaram na tarde desta quinta-feira encontravam-se em posições completamente diferentes. O Bilbao, comandado pelo argentino Marcelo Bielsa quebrou um tabu de 35 anos sem chegar às quartas-de-final e encontra-se em quinto lugar no campeonato espanhol, próximo de uma classificação para a Uefa Champions League. O Manchester, muito pelo contrário, se via numa situação totalmente oposta: após uma eliminação vergonhosa na fase de grupos da Champions, ele agora estava num torneio de menor prestígio e de título ainda inédito para a história do clube.
Isso deixava os ingleses com duas opções: a primeira e mais correta, partir com tudo para a vitória de um título ainda nunca conquistado. A segunda e adotada pelo técnico escocês Alex Ferguson, a de sair o mais rápido possível do torneio para se concentrar no campeonato doméstico o qual ele é líder.
Essa é uma tática perigosa – sem falar em desrespeitosa com relação aos torcedores que pagaram ingressos caríssimos para acompanhar a partida tanto na Inglaterra quanto na Espanha – já que nada garante que a eliminação no campeonato europeu leve à vitória na Inglaterra. Mas também constata outra grande preocupação: a fraquíssima campanha de times ingleses em torneios internacionais este ano.
Sete times ingleses foram classificados tanto para a Uefa Champions League quanto Europa League na temporada 2011-2012. Foram eles Manchester United, Manchester City, Chelsea e Arsenal na Champions e Tottenham, Fulham e Stoke City na Europa League. Logo de cara, Fulham e Tottenham ficaram pelo caminho, cada um terminando em terceiro na fase de grupos e não se classificando para as dezesseis-avos-de-final. O mesmo fizeram City e United em seus respectivos grupos da Champions.
Contextualização: o Manchester City com seu milionário elenco investido por um bilionário árabe com dinheiro proveniente da exploração de petróleo, não resistiu ao que provavelmente era o grupo mais equilibrado da competição, com Bayern de Munique, Napoli e Villarreal. Já o United, com seu pedigree e tradição, subestimou os adversários Basel e Benfica e foi eliminado pela primeira vez desde 2006. Tanto ele quanto seu irmão barulhento foram recompensados com uma vaga na primeira fase das eliminatórias de um torneio menor.
Culpa de uma escalação duvidosa por parte de Alex Ferguson que acreditou ser possível rodar o time numa chave razoavelmente “fácil”. Mas, seguimos em frente. Não contentes em ver seus compatriotas caírem, o Arsenal tomou quatro gols no jogo contra o Milan na Itália. Já no Emirates Stadium a coisa foi diferente. Partindo na contramão da campanha feita pelo United em casa em jogos internacionais (1 vitória, 2 empates e 2 derrotas em 5 jogos) o Arsenal venceu por 3 x 0 mas não se classificou para as quartas.
A missão então ficou por conta do Chelsea que curiosamente é, dos grandes, o time que enfrenta maiores dificuldades financeiras e administrativas. Posiciona-se em quinto lugar no Campeonato Inglês, o que não lhe garante uma vaga na Champions do ano que vem. Isso culminou com a demissão do técnico André Villas-Boas e uma derrota para o Napoli também na Itália, por 3x1.
Missão digna de um filme de Tom Cruise, o Chelsea virou o jogo na Inglaterra e bombardeou um 4x1 que lhe garantiu uma vaga, nas quartas-de-final, sendo que ele agora é o ÚNICO a representar a terra da Rainha no futebol europeu internacional. Isso foi constatado definitivamente pela eliminação do City pelo Sporting: apesar da vitória por 3x2 em casa, os portugueses seguiram pelo critério do gol fora de casa.
Esse retrospecto é assustador, visto que o próprio United foi vice-campeão da Champions League no ano passado, só parando no Barcelona na final. O próprio Chelsea vinha de um vice campeonato em 2007-2008 (para o United também) e uma derrota para o Barcelona nas semi-finais do ano seguinte.
O Arsenal ano passado chegou a vencer o grande time espanhol no Emirates nas oitavas de final, não resistindo no jogo de volta. Mesmo assim, um resultado muito mais satisfatório do que o apresentado pelos times ingleses este ano.
Se voltarmos um pouco a fita as coisas pioram. O Liverpool foi derrotado nas semifinais da Champions em 2007/2008 pelo Chelsea e pela primeira e última vez na história, dois times ingleses se enfrentaram na final da competição. Desde então, tem amargado derrota atrás de derrota e ano passado sequer se classificou para o torneio. O mesmo acontece este ano.
Voltemos a fita um pouco mais. O Aston Villa foi vencedor somente no ano de 1982. A coisa parou por aí. O tradicionalíssimo Nottingham Forest foi bi em 1979 e 1980, agora se encontrando na segunda-divisão do Campeonato Inglês. Faz um tempo.  
Se os times ingleses estavam perdendo território para os espanhóis na liga européia, a coisa piorou consideravelmente de um ano para cá. Enquanto nenhum inglês com exceção do Chelsea continuar nos torneios, a Espanha emplacou cinco. Três na Europa e dois na Champions League. E é bom que os Blues rezem para não enfrentarem um Bayern de Munique, Real Madrid ou Deus os livre, Barcelona na próxima fase da competição.
Apontar as causas de tamanho retrocesso não é uma ciência exata. Muito se especulou sobre a má administração, debandada de jogadores para o oriente e o comando duvidoso de muitos dos treinadores que atuam em clubes ingleses este ano.
Alex Ferguson que o diga. Essa é uma das piores campanhas do United em competições européias nos últimos 12 anos. Arrogância, azar e falta de visão parecem estar se mesclando neste ano enquanto os Diabos Vermelhos ainda possuem uma única chance de conquistarem um título importante este ano, na Premier League. A ausência de jogadores de armação no meio campo tem infernizado a vida do escocês e vale lembrar de que nada ajuda tirar Scholes da aposentadoria e quebrar recordes de participação em um time por parte de Ryan Giggs sem uma mudança de abordagem, elenco e filosofia dentro de campo. Os três normalmente não vêm no mesmo pacote.
Isso faz pensar e temer um futuro oblíquo para os clubes ingleses, integrantes do mais antigo, tradicional e milionário torneio de futebol do mundo. De nada adianta o elenco milionário do City se eles não possuem o equilíbrio, a maturidade e a postura para conquistar um título. Tampouco a tradição do United se a arrogância fala por último. Mais do que uma comprovação de causa e feito, a temporada 2011-2012 para os times da Terra da Rainha, é a constatação de um princípio: não se vive de glórias passadas.

- Roberto Fideli é torcedor do Palmeiras e Manchester United e possui um blog sobre cinema no endereço www.cinefilosetc.blogspot.com Escreve como convidado e todas as opiniões retratadas em seu texto são únicas e exclusivamente dele e não devem ser responsabilizadas pelo detentor dos direitos do blog onde ela se encontra. 

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